Tema de Redação: Há possibilidade de ser diferente nesta economia neoliberal?

É claro que existem restrições. Os governantes, quando assumem, firmam determinados contratos. Esses contratos passam de um governo para outro, e fica uma amarra. Mas existem brechas para mudança.

Me parece que deveria haver, do ponto de vista da sociedade, uma mudança de postura. A postura, para mim, é algo muito importante, mesmo com a existência das restrições. Se o governante realmente tem uma postura séria, digna e cumpre com toda a transparência essa postura e mostra à população o porquê de não poder avançar nisso ou naquilo, conforme era a sua intenção, é bem diferente. Aí se passa a ter um projeto para médio e longo prazo. Não frustra as expectativas da população de maneira a deixá-la completamente órfã. Do meu ponto de vista, boa parte da população brasileira, esta que teve suas esperanças vilipendiadas, está órfã.

Nós temos algum país do mundo que poderia ser uma espécie de modelo ou espelho de uma economia saudável, socialmente falando?

A economia brasileira, assim como as outras economias latino-americanas, ressalvadas as devidas diferenças, do ponto de vista da produção capitalista, são economias muito jovens. O Brasil tem 117 anos de capitalismo, sendo que, de capitalismo industrial, temos 50 anos. E com uma herança colonial, latifundiária, de concentração muito grande e, por outro lado, com uma cidadania vigiada, regulada o tempo todo. Com ausência de formação do sujeito social, do cidadão efetivamente.

Considerando todos esses pontos, para você buscar uma semelhança, algo que possa servir como parâmetro, fica muito difícil. Dá para fazer isto, mas do meu ponto de vista como pesquisador, cientista, a gente tem que comparar coisas comparáveis. Temos que considerar o processo histórico, os respectivos parâmetros para podermos ver se realmente são comparáveis.

Não podemos, por exemplo, comparar a Argentina com o Brasil, porque são colonizações diferentes, processos históricos diferentes, são culturas diferentes, formações diferentes. Os argentinos, os uruguaios, são cidadãos que têm uma postura política muito diferente da do brasileiro. Eles têm formação. Eles não têm educação só alfabetizadora. Nós temos educação alfabetizadora. A nossa educação, de Primeiro, Segundo ou Terceiro Grau, não forma o sujeito crítico, o cidadão com postura crítica. Ela forma um robô humano, enquanto que os outros povos têm postura. Eles podem ter equívocos nas suas posturas, mas têm postura e fundamentam esta postura.

O jovem tem como buscar essa postura?

Eu diria que o futuro pertence aos jovens. O mundo é dos jovens. Até o título do jornal é importante nesse sentido. Mais do que nunca temos que ter a clareza de que o mundo é dos jovens. No percentual da população mundial, os jovens são quase a metade. Então o mundo é deles. Eles têm que fazer o amanhã. Para as pessoas que já estão com uma experiência acumulada avançada, o amanhã é muito crítico, é muito lamento daquilo que não fez.

Para o jovem, o amanhã é tudo o que ele tem que fazer. O jovem tem que criar consciência de que o amanhã dele está diretamente relacionado com o que fizer hoje. Se hoje ele tiver uma postura de quem olha com horizonte, que quer criar uma perspectiva diferente daquela que ele vive hoje, tem que começar a fazer as coisas hoje. O jovem brasileiro, mais do que nunca, tem que se responsabilizar pelo seu futuro. E para isso tem que se formar. Não adianta ficar só na alfabetização profissionalizante, que ele não vai avançar em nada.

Aliás, nós estamos na era da terceira revolução industrial, na revolução científica tecnológica, e lamentavelmente a nossa juventude está lendo cada vez menos. Está tendo conhecimento e senso crítico cada vez menor.

Desta forma a juventude vai repetir aquilo que os outros estão fazendo?

Sim, e do meu ponto de vista, com mais dificuldades ainda. Se nós acompanharmos a inserção no mercado de trabalho, que é o que vai dar posteriormente as condições de manutenção e reprodução do indivíduo, a concorrência está cada vez maior, a remuneração está cada vez menor, as possibilidades de inserção estão cada vez mais difíceis. Há uma concorrência entre os que procuram.

Por exemplo, num concurso público para quatro ou dez vagas, quantos se candidatam? Nas segundas-feiras, na cidade, em frente às lojas, restaurantes há filas e filas, porque ali estão oferecendo uma ou duas vagas. Aí a gente vê o tamanho da concorrência, da expectativa de encontrar um lugar e o tamanho da oferta. Se sou jovem e esta realidade de hoje não me satisfaz, tenho que buscar meios de mudar isso. Não existe até o presente momento nenhuma outra forma mágica que estabeleça uma outra condição.

A formação do indivíduo se dá por um processo de crescimento e desenvolvimento do seu intelecto, das suas habilidades, seus valores, conceitos e postura perante a sociedade. A partir daí o jovem pode mudar.

Tem que começar hoje. Não adianta esperar um milagre. O próprio momento atual está nos dando lições: quem ontem foi jovem e saiu de casa, hoje está voltando e sendo sustentado pelos pais que já estão velhos e vivem da aposentadoria.